Alan Kardec já é realidade como “camisa 9 moderno”

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No Brasil, é comum criticar e pedir jogadores na seleção, principalmente os goleadores. Não importa o nível técnico, tático ou o momento do time: basta um gol em estadual ou boa sequência para ter o nome especulado nos 11 da canarinha. Exemplos não faltam, de Hernane a Ganso.

Com as lesões de Fred, Alan Kardec passou a ser o nome pedido para a 9 amarelinha. Afinal, acumula vários gols nesse ano. Mas uma análise mais profunda mostra que Kardec está longe de ser um centroavante tradicional e une inteligência tática e domínio de fundamentos que o tornam apto a não apenas ser centroavante, mas também uma alternativa de jogo – para o Palmeiras e quem sabe, para a seleção.

As primeiras chances no Vasco vieram com Celso Roth em 2007, que armava o time num 3-4-2-1 e usava Kardec como arma no segundo tempo, geralmente substituindo o meia Marcelinho para ter mais presença na área num 4-2-2-2.

A execução de Roth e mantida por Valdir Espinosa, que efetivou Kardec na reta final do nacional num 4-2-2-2, era a mesma: fixo na área para aproveitar os cruzamentos dos ofensivos laterais, apoiando como alas, ou finalizar a jogada preparada por Leandro Amaral, o “segundo atacante”. Engenho ofensivo não apenas daquele time, mas sim da maioria dos 4-4-2 em quadrado desenhados por aqui.

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O famoso gol contra o Corinthians, que praticamente selou o rebaixamento da equipe paulista em 2007, ilustra bem: Kardec desvia de cabeça, a bola bate em Fábio Ferreira e vai para o gol. Típico centroavante rompedor, de boa altura e físico forte.

Mas o futebol – aqui e no mundo – mudou. E num raro ato de inteligência, Kardec buscou a adaptação a novos tempos e desafios, mesmo nos anos difíceis de 2008, quando o Vasco foi rebaixado, e 2009, quando foi pouquíssimo aproveitado no Inter.

A ida para o Benfica ainda como promessa não se concretizou em chances no time titular: apenas 24 jogos na temporada 10/11, quase sempre como único avançado num 4-2-3-1 ou fazendo dupla no ousado 4-1-3-2 predominante de Jorge Jesus. Difícil competir com Saviola e Cardoso na equipe portuguesa.

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A virada veio no empréstimo para o Santos recém-campeão da Libertadores e o ânimo de buscar vaga com Borges na equipe que disputaria o Mundial contra o temido Barcelona no fim do ano.

O tão criticado – e injustiçado – Muricy Ramalho foi o primeiro a ver o interesse do jogador na parte tática e a evolução conquistada nos dois anos de Europa. No Brasileirão que o Santos penou para se achar, o técnico descobriu Kardec como solução para as contusões de Elano e Ganso: um 4-3-2-1 com o camisa 10 indo do meio ao ataque, Neymar agudo pela esquerda e um volante abrindo na direita, geralmente Ibson.

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A partir daí, Muricy foi só elogios a Kardec, que ganhou a posição nos 3×3 com o Inter, no Beira-Rio, e não saiu mais da equipe que foi bem no returno. Um dos elogios de Muricy deixa claro a importância dele:

“Ele não é um grande armador de jogadas, mas é inteligente para se posicionar e me chamou atenção por isso nos treinamentos. Como perdi o Ganso, virou uma solução tática. Já tinha visto o Alan Kardec jogar em Inter, Vasco e Benfica e pensava que ele só sabia atuar enfiado. Mas o dia a dia me mostrou que não é bem assim. Ele é muito inteligente, sabe jogar nos espaços que deixam. Mudou um pouco as suas características aqui” – Muricy Ramalho em entrevista para a gazeta.net, 19/09/11.

A importância tática de Kardec na equipe era de abrir espaços para a chegada dos homens de trás, mas também saber o momento de ir para a área ou abrir pelo lado para receber a bola do lateral. A contribuição na fase defensiva, incomodando a saída de bola do adversário, também foi notada.

Kardec foi titular no Estadual e perdeu espaço para a experiência de Borges na Libertadores do “Barcelosantos” do primeiro semestre de 2012 que parou na retranca do Corinthians. Kardec, usado como centroavante, continuava a combinar a inteligência no posicionamento e momentos mais enfiado, e mais polivalente, era usado até como ponta em casos de “abafa”.

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A chegada ao Palmeiras para a Série B em 2013, substituindo Kléber, foi a cereja do bolo para Gilson Kleina montar o time que subiu de divisão com campanha inquestionável quando teve Valdívia, num 4-3-1-2. Kleina orientava Kardec a voltar pelos lados, formando praticamente um 4-1-4-1 na fase defensiva para poupar o camisa 10, mas era comum ver Kardec invertendo com Leandro pelos lados e indo para a área, como centroavante, quando o time atacava.

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Nesse ano, Kardec seguiu com a movimentação intensa e ocupação de espaços no moderno 4-2-3-1 alviverde. No clássico contra o São Paulo, Kardec foi chave fundamental voltando na esquerda para proteger Wendel e conter o apoio de Alvaro Pereira, deixando Valdívia como autêntico “falso-9”, posicionamento tantas vezes repetido em 2013.

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Kardec fez o gol de empate no Derby como típico centroavante: testada forte no cruzamento de Diogo. Mas típico centroavante ele não é já faz tempo: Kardec pode ser um híbrido, o jogador moderno preparado para o 4-2-3-1 (e suas variáveis) e que participa, com intensidade, de todas as fases do jogo. Leia mais aqui.

Como Kleina disse na entrevista ao Bem Amigos!, no dia 17 de fevereiro, Kardec faz todas as posições do quarteto ofensivo no 4-2-3-1 porque é intenso, se posiciona para a jogada e nega espaços do oponente na fase defensiva sem deixar de ser rompedor quando o jogo precisa: o oposto do jogador que “só quer bola no pé”.

A inspiração em Thierry Henry e na camisa 14 não é coincidência: o ídolo do Arsenal atuava de forma semelhante, combinando movimentação inteligente, participação defensiva e muitos gols no histórico 4-2-3-1 do Arsenal em 2004.

Entender as escolhas de Scolari vai além da tática e chega na confiança e personalidade de um jogador – talvez seja por isso que o técnico seja tão mal compreendido, mas sempre certeiro. Se for convocado ou não, Kardec não é lobby, nem fase: é uma realidade como “camisa 9” moderno, tanto aqui como lá fora.

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