Seleção brasileira não sente falta de um armador. Entenda o porquê.

Durante a Copa das Confederações e mais intensamente no segundo turno do brasileiro, um novo pedido apareceu na seleção: o armador. Mas uma análise profunda sobre o estilo de jogo da seleção diz que o pedido é desnecessário e a seleção vai muito bem como está.

Mas o que seria um armador? Ganso, Douglas, Jadson e Valdívia: os ”armadores”, camisas 10, craques do time. Geralmente colocam o companheiro na cara do gol com um toque. Podem finalizar e também recuar para pensar o jogo. Carregam a bola, ditam o ritmo (ora passando para trás quando a marcação está apertada, ora lançando para aproveitar o espaço e o companheiro bem colocado) e não costumam voltar, já que o time marca por eles, como Baier no Furacão.

O Brasil de Scolari tem Oscar na meia-cancha. Um jogador constantemente criticado em seu país por não executar o que foi descrito acima. Ledo engano: Oscar não é armador. É um meia moderno feito para o 4-2-3-1. Procura o lado, finaliza, avança para pressionar, volta com a linha. Desarma, se move, é intenso e também tem passe qualificado.

Felipão viu isso e montou um time que se encaixa em Oscar. Um time que joga, vence e faz gols sem um armador. Entenda:

Primeiro, a saída de bola: sempre pelos lados, com Luiz Gustavo entre os zagueiros. Isso empurra Marcelo e Dani Alves próximos a Neymar e Hulk e cria uma superioridade numérica nas linhas adversárias. Oscar vai até o lado da jogada, participa recebendo o passe e libera Hulk e Neymar para ultrapassarem. No frame, Oscar atrai o lateral adversário, no “mano a mano”, e abre o corredor para Hulk se projetar.

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Os mais críticos devem estar pensando: e se isso não funcionar? Scolari treinou uma alternativa: a diagonal do zagueiro para o ponta. Essa ligação direta aproveita a qualidade dos zagueiros e os dribles de Neymar e Hulk, além de colocar a bola rápido no ataque. Bola no ataque em poucos segundos e sem usar um “camisa 10″.

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Os mecanismos de saída de bola do Brasil não dependem de um único jogador e variam conforme o que o jogo pede. A seleção tende a retirar a velocidade do oponente, picando com muitas faltas e tocando de um lado para o outro até achar espaço, solução para furar retrancas que não precisa de passe.

O vazio que a seleção deixa no centro não é problema nítido, carência ou retranca. É pura e simplesmente estilo de jogo.

E na defesa? Quando o time é atacado e precisa retornar, a seleção adota a marcação-pressão, nome muito ouvido por aqui quando o Corinthians estava em alta e que Scolari introduziu com sucesso na seleção. E nesse mecanismo, Oscar é peça fundamental e notória.

Não é apenas porque foi o maior ladrão de bolas da Copa das Confederações. É porque Oscar ira espaços, pressiona o adversário e o força ao erro. Está sempre ligado, atento ao passes do oponente e busca interceptar e lutar para recuperar a pelota. Como no frame, onde todo o time está atrás da linha da bola (sim, Muricy tem razão), mas no campo adversário e Oscar ultrapassa até Fred para induzir o oponente ao erro.

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Essa nova forma de ocupar e retirar espaço passou a criar novas situações de jogo. Hoje, marcar é uma forma também de atacar, como o Corinthians fez muito bem em 2011 e 2012 e o Brasil fez. Nessa nova forma, todos os jogadores são capazes de atacar, e o time não depende apenas do passe qualificado de seu camisa 10.

Diante de todas as qualidades sem a bola e na pouca dependência de um “armador” na saída de bola, e ainda na modernidade de sua fase defensiva, como fica o ataque da seleção?

O Brasil ataca de diversas formas: cruzamentos procurando Fred, dribles de Neymar ou os avanços de Paulinho. Mas por trás de tudo isso há um mecanismo tático que permite a execução dos movimentos, e nele Oscar é outra peça importante:

Uma tendência cada vez mais presente em times que usam o 4-2-3-1 é uma espécie de 4-2-4 na fase ofensiva, tendência que o Brasil aplica. Os pontas se projetam na área e o meia central fica junto ao centroavante. Essa linha de 4 jogadores faz a linha defensiva adversária ficar no mano a mano, e com vitória técnica os atacantes conseguem uma cabeçada ou chute a gol.

Oscar puxa essa variação e vai para a área quando a jogada passa pelo lado. Hulk usa de sua força para penetrar e Neymar, mais leve e técnico, se movimenta e abusa das infiltrações. Oscar fica lá, como atacante para atrair zagueiros e deixar o centroavante sozinho.

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Oscar também tem outro comportamento no ataque: ultrapassa a linha da bola, como atacante, e dá uma opção de passe, geralmente livre de marcação. No frame, a jogada ocorre pela esquerda (novamente com o quadrado para criar superioridade) e Oscar está lá, junto a Fred e livre de marcação. Os efeitos disso? Em apenas uma movimentação Oscar bagunça as linhas adversárias e pode trocar de posição com um dos meias extremos, empurrando Neymar ou Hulk para a área.

O último comportamento é bem diferente dos armadores, que costumam atuam atrás da linha da bola, recebendo, pensando e passando. De futebol lento, tendem a demorar para ver o jogo e, dentro do futebol moderno, tempo de posse é quase algo impensável, já que a marcação-pressão retoma a posse em poucos segundos.

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O camisa 11 potencializa as características de Hulk, Neymar, Alves e Marcelo, pode jogar em qualquer posição na trinca de meias e combina velocidade e visão. Oscar volta sem a bola, pressiona e desarma. É completo. E ainda fornece a possibilidade tática de ser winger, empurrando Neymar para o centro num 4-4-1-1 já testado.

Diante de todas as opções descritas acima, a seleção sente falta de um armador? De um passe de trás? A resposta é simples e pura: não.

Se praticasse seu futebol, um armador na seleção ficaria restrito a faixa central e não criaria as inversões de posição ou as entradas na área de Oscar. Seria possível que o time o procurasse na saída de bola, e se ficasse sozinho, as chances de erro seriam maiores com a marcação-pressão.

Nada impede que um armador como Ganso seja convocado e jogue. Mas, se a seleção manter o estilo, é preciso que ele se reinvente com e sem posse, se movimente, abra. E jogue em alto ritmo, sempre atento. Vale notar que isso ainda não aconteceu.

Por enquanto, a seleção não precisa de Ganso, Xavi ou Modric. Tudo está encaixado e organizado, dentro das características que o material humano pede. Agora é parabenizar Scolari e Parreira e prosseguir com o trabalho até ano que vem.

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