Espanha 2 x 1 Uruguai: o gol é um detalhe

“O gol é apenas um detalhe”

A frase de Carlos Alberto Parreira ficou célebre por expressar a importância da posse de bola para envolver o adversário. Mal entendido, logo ganhou a fama de “defensivo” no país que prefere o jogo vertical e a vitória pessoal para conseguir o maior número de gols.

Anos depois, influenciada por outra escola, a Espanha remete ao conceito de Parreira na posse. Contra o Uruguai, teve momentos em que chegou a 87% de posse e terminou com 71%. Dominou tal forma o adversário que só sofreu gol em cobrança de falta e permitiu apenas 4 chutes ao gol de Casillas.

O gol não foi farto: apenas 2 em 16 chutes a gol, 9 deles na área que Muslera cuida. A grande maioria – 10 – foi de fora da área. O que chama a atenção são os passes: dos 98 trocados por Iniesta, houve apenas um erro.

O desenho se assemelha a um 3-7-1 que forma linhas de passe. Quem recebe gira e olha pelo menos para 3 jogadores na frente. Forte pela esquerda com Alba liberado como ala e Iniesta caindo pelo lado, a Espanha dominou o Uruguai no físico e na tática. A Celeste em momento nenhum ofereceu perigo num indefinido 4-4-2 que tentava ser 4-3-1-2 com a bola.

Com o gol de Pedro após Lugano cortar mal, a Espanha continuou o jogo até o gol de Soldado, recebendo passe de Fábregas. No segundo tempo, menos ataques e mais trabalho de passar e passar. O gol de Suaréz que incendiou o jogo saiu de bola parada, um dos poucos jeitos de se atacar a Fúria.

A Espanha gosta do placar mínimo. Administra o resultado como poucos. Não corre perigos. A posse de bola retira do adversário a opção do ataque e o faz correr para recuperar, cansando o oponente física e mentalmente. Sem dúvidas é o melhor sistema defensivo do mundo, pois o adversário não ataca.

Não há pressa: assim como no basquete, as jogadas são recuadas e trabalhadas até o o detalhe do gol. Quem corre é a bola, não os jogadores: foram apenas 17 corridas individuais da Espanha, contra 47 da Itália.

Chega a ser engraçado constatar que a Seleção de 1994 era criticada justamente por fazer o que a Espanha faz hoje: manter a bola nos pés. A diferença era que em 1994 era uma “retranca” do “Zinho Enceradeira”, como chamada por muitos e nessa matéria, e hoje é “aula” e “jogo bonito” da Espanha.

Nem melhor, nem pior, são escolas diferentes. O Brasil é da escola de vitória pessoal, toque de bola em velocidade, ultrapassagem e compensação. Sempre arrisca o gol. O antológico gol do Capita em 1970 mostra. Ou se preferir, todos os jogos da Seleção de 1982 ou do Santos de 2010.

Mas hoje, a vitória pessoal perde efeito com marcação duplicada e a compensação do volante que cobre o lateral abre um buraco no meio. A saída de bola de Gérson, como no vídeo acima, é rapidamente  neutralizada com pressão do adversário. É justamente a marcação pressão o que o Brasil de 94 não tinha e que a Espanha mostrou com louvor.

Por isso é preciso atualizar sem perder a “alegria e ousadia”.

O futebol moderno pede que o driblador retire espaços do oponente, sufoque a saída de bola e tenha velocidade e fôlego. Todos precisam participar com e sem a bola, o que convencionou a se chamar de “disciplina tática”, como o “atrasado” Scolari disse ainda em 1987, aqui. Nisso, Bayern, que venceu o tiki-taka, tem a ensinar, assim como a Espanha.

É o sistema de marcação e recuperação da bola o que o Brasil precisa aprender. No ataque há diversos jeitos, todos legítimos: contra-golpe italiano, bola alta e escorada inglesa, drible brasileiro e o tiki-taka. Mas a forma como se marca o adversário e rouba a bola é comum entre Espanha, Bayern e Corinthians.

É fantástico ver a Espanha jogar pela forma como domina os adversários e pela proposta. Mas os pedidos para que o Brasil jogue como ela não são válidos. O Brasil precisa marcar como a Espanha e atacar como Brasil.

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