A tática do fim do jejum do Palmeiras em 1993

Há 20 anos, em 12 de junho de 1993, o Palmeiras renasceu.

Mais do que a conquista do Campeonato Paulista, o dia marcou o fim do incômodo jejum de 16 anos, 9 meses e 25 dias sem títulos da melhor maneira possível: uma goleada de 4×0 sobre o maior rival Corinthians.

Carente de ídolos, sem títulos, cheio de promessas e com caros técnicos sem resultados: é o Palmeiras atual e também o retrato do clube entre 1976 e 1993.

Para findar a crise, o clube fechou contrato com a Parmalat, que trouxe contratações, mas não paz imediata. Nelsinho Baptista afastou Evair, Jorginho (hoje técnico), Ivan e Andrey por indisciplina e se demitiu em Agosto de 92. Em seu lugar veio Otacílio “Chapinha” Gonçalves, credenciado pelo GrêmioShow de 1988 e pela Série B de 1992.

O Paulistão de 1992 (à época disputado no segundo semestre) deu esperanças à torcida, mas o histórico São Paulo de Telê aplicou 2 vitórias nas finais. Para acabar de vez com a má-fase, a diretoria/Parmalat trouxe nomes como Antônio Carlos, Roberto Carlos, Edilson e Edmundo, no que foi chamado de “Supertime” pela imprensa.

Otacílio queria um time veloz e com muitas jogadas pelas pontas. Armou um 4-4-2 com Zinho e Edmundo estáticos nos lados, forçando na direita com Mazinho, de volante, ou na esquerda com Roberto Carlos. Edílson fazia a movimentação entre o ataque e Zinho saía da esquerda, abrindo o corredor para Roberto, ou marcando o lateral:

Otacílio Gonçalves concedeu entrevista exclusiva ao Painel Tático explicando o time: “Em 1992 a equipe era meio fraca. O Brunoro chamou para uma reunião com um italiano dizendo que iam chegar reforços pois eles queriam o título. A primeira coisa que eu fiz foi resgatar o Evair, que estava brigado com o clube. Depois veio Zinho, Roberto Carlos, Edmundo, Edílson, e a equipe ficou muito forte. Tínhamos dois extraordinários na meia-cancha, Sampaio e Mazinho, que davam a sustentação. O Zinho ajudava na armação e marcação e sem a bola ficava o Evair e o Edmundo”

Outro que lembra o time é Edinho Baiano, em entrevista exclusiva ao Painel Tático: “O time do Nelsinho era mais de toque de bola, cadenciado. Tinha o Edu Marangon que lançava muito. Já o time do Chapinha era mais objetivo, mas sem pressa, sabendo que o resultado viria. Sabíamos que a linha de frente faria a diferença.”

Líder na primeira fase com o melhor ataque e defesa, o Palmeiras se viu em mais uma crise, agora por conta da “Guerra de Vaidades” do time cheio de confiança e individualismo: Evair e Edmundo eram inimigos e Edílson não passava a bola. Otacílio era vaiado a todo jogo e pediu demissão, apesar do saldo positivo de 17 vitórias, 6 empates e apenas 3 derrotas em 1993.

Otacílio fala sobre a pressão: “Sempre teve. Dias atrás me ligaram e disseram que o Palmeiras está a mesma coisa. Até hoje é assim”.

Edinho fala sobre o momento: “O ambiente era maravilhoso. Tinha sim as briguinhas, mas era coisa pequena, de um não passar a bola para o outro, de abaixar a cabeça. Por incrível que pareça, não afetava tanto. Ficamos muito sentidos quando o Chapinha saiu, porque o ambiente com ele era maravilhoso, era uma família”.

A solução foi Vanderlei Luxemburgo. O treinador manteve a dinâmica de toque de bola em velocidade com algumas alterações: Zinho armava no meio, mas não ia para a ponta, e Edílson ficou na esquerda, como atacante. Os laterais avançavam alternadamente e Evair podia recuar mais para acionar Edmundo e Edílson num 4-3-3 que por vezes parecia um 4-3-1-2 com a bola.

Eu acho um crime deixar jogadores como Zinho e Edmundo estáticos nas pontas. Aliás, o futebol moderno não permite mais atletas fixos guardando posição. (Luxemburgo, em entrevista ao Estado de São Paulo – 25/04/1993)

Apesar das mudanças, ele reconhece que quem montou o time foi Otacílio: “Tem uma pessoa extremamente importante que pouco se fala nela: o Chapinha. Quem montou a equipe de 93 foi o Otacílio. (…) A montagem toda do processo foi dele.” (Entrevista à Rádio Guaíba)

Já Otacílio dá os créditos ao atual técnico gremista: “Me sinto parte, mas uma parte. Quem ganhou os jogos finais foi ele (Luxemburgo). Eu não fiz nada, ele é sempre muito generoso comigo”.

Para Edinho foi o momento mais difícil da campanha: “Quando ele chegou foi difícil, pois ninguém tinha trabalhado com ele. Foi o momento onde balançamos, mas em 3 jogos assimilamos já. Infelizmente eu me lesionei numa jogada com o Muller (contra o São Paulo, derrota por 2×0) e tive que passar por uma cirurgia do joelho que me tirou do time. Mas o Luxemburgo me pedia para concentrar junto, pois era importante termos o mesmo pensamento”.

Luxa controlou Edmundo, deu paz no vestiário com forte comando e só perdeu um jogo no Paulista, contra um Corinthians em ascensão. Na semi, um passeio pelos times do interior: 6 vitórias em 6 jogos. E o reencontro com o Corinthians de Neto e Viola na final.

No primeiro jogo, dia 06 de junho, o Corinthians foi melhor, dominou o meio-campo e aproveitou falta cometida por Roberto Carlos para Neto cobrar, Viola marcar e imitar o porco. Delírio corintiano.

“Ficou todo mundo procurando o porco, e quando viram, ele estava dentro da rede”  (Viola, depois do jogo.)

Os dias seguintes foram de tensão para o Palmeiras e alegria ao Corinthians. Muitos já davam o título do Timão como certo. Do lado palestrino, apreensão e pressão: a Parmalat era vista como última esperança para acabar com o jejum.

Apesar do resultado, Edinho fala que aquele momento só foi bom para o Palmeiras:“A atitude do Viola trouxe benefícios para o Palmeiras. Abraçamos aquilo como uma motivação, uma provocação mesmo, pegamos aquela imagem para fazermos história.”

No jogo final, Luxemburgo mudou a estratégia de motivação:

Não houve preleção antes daquela partida. O Luxemburgo editou uma fita com imagens do Viola, dos jogadores e da torcida do Corinthians. Mexeu muito com nosso ânimo.” (César Sampaio, em entrevista a Folha de SP)

Melhor nos 90 minutos e na prorrogação, o Palmeiras superou o Corinthians no meio-campo e acionou Evair, que impecável, guardou dois gols. Luxa cobrou muita movimentação de Edílson, Edmundo e Zinho, embaralhando a defesa corinthiana, principalmente na esquerda, com o sobrecarregado Ezequiel. Nelsinho desfez o 4-2-2-2 e trocou Adil por Tupãzinho para segurar Roberto Carlos, quase num 4-2-3-1. Sem efeito: 3×0 no tempo normal e 1×0 na prorrogação. Palmeiras, enfim, campeão.

Vingança em Viola e em Nelsinho Baptista, aquele que afastara Evair. Luxemburgo resumiu: “Sofremos muito, fomos humilhados. Mas a resposta que o time deu não poderia ser melhor (Estado de SP, 13/06/93)

No futebol, existem dias bons e ruins. Existem histórias de redenção e vingança. Poucos dias foram tão bons e redentores para o Palmeiras como 12 de junho de 1993.

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