Especial: a final alemã na Champions League

Em semana de grandes confrontos, é comum sair muitos especiais na mídia. Mas no meio de tudo o que já foi falado, o que destacar entre Borussia Dortmund e Bayern Munich, que amanhã disputarão a final da Champions League?

Impossível não pensar no “bom e barato”, mas dessa vez positivo e com muita paixão que deu certo no Borussia. E em um time tão coletivo como o Bayern, quem se sobressai? A figura do técnico com pulso firme, simplicidade e conversa que pode cravar de vez o nome na história.

E é claro, a tática que fez do Borussia bi-alemão e Jupp Heynckes ganhar a Europa pela primeira vez.

O “bom e barato” que serve de exemplo

Se você já ouviu esse termo, com certeza deve se lembrar da figura de Mustafá Contursi, odiado por 10 entre 10 palmeirenses por implantar uma política de contratações baratas para fazer caixa no clube a partir de 2000. Na Alemanha, o Borussia Dortmund renasceu de uma crise que parecia ser o fim e mostrou como se faz o “bom e barato” com base no planejamento e na paixão.

Fica difícil apontar como começou a crise, mas é justamente um brasileiro que pode ajudar a entender: Amoroso foi contratado a peso de ouro pelo clube em 2001, que na época gastava demais para formar elencos vencedores. Campeão da Europa em 1997, sob o comando do mítico Ottmar Hitzfeld, o Borussia perdia o vigor e acumulava dívidas, vendo seus rivais crescerem na Bundesliga e o desempenho de Amaroso cair cada vez mais.

Em 2004, o clube beirava a falência e Amoroso, em péssima fase, foi vendido ao Málaga. Antes, o clube teve que tomar decisões extremas: hipotecou o estádio em 2002, pegou um empréstimo de quase R$ 300 milhões de um banco inglês e o maior desgosto: R$ 6 milhões pegos do Bayern, para quitar salários. Algo como o Flamengo emprestando dinheiro ao Vasco – sim, isso é inimaginável, por enquanto, em terras tupiniquins.

A solução foi usar os empréstimos para quitar as dívidas e adotar o lema de jamais gastar mais do que se arrecada. Com saúde financeira e ingressos baratos, a maioria do sócio-torcedor, o Borussia pode dar estabilidade ao técnico para iniciar um projeto de busca de jovens jogadores e muitos investimentos na base. Com Thomas Doll o clube se livrou do rebaixamento em 2006 e renasceu definitivamente com Jürgen Klopp, uma espécie de Mourinho do país que ganhou o bi-alemão em 2010/11 e 2011/12 e está perto da consagração continental.

Taticamente, uma equipe disciplinada e muito rápida, num 4-2-3-1 com impressionante rapidez na transição. Gungodan começava as jogadas de trás e Kagawa, hoje no United, fazia companhia a Lewandoski ou Lucas Barrios. Gotze, o Neymar alemão, partia dos lados para armar o jogo ou se apresentava para concluir. Sem a bola, todos voltavam e podiam formar 2 linhas com Kagawa mais à frente, esperando o adversário, ou um 4-1-4-1 com Gungodan avançado, pressionando a saída adversária. Regularidade e vitórias nos confrontos decisivos com o Bayern que deram dois títulos alemães ainda com Barrios e Sahin no elenco.

“Se você não tem dinheiro e, acima de tudo, quer qualidade no seu elenco, você precisa ser corajoso” Jürgen Klopp em entrevista ao El Pais.

O alemão cinzento

“Ele é responsável por 50% do sucesso do Bayern”, Hartwig Hasselbruch, jornalista alemão da revista “kicker”

A história do futebol europeu é recheada de “esquadrões”: grandes times, geralmente liderados por um técnico inovador, que são supremos no continente e dentro do país. Gerações vitoriosas com a mente brilhante de um técnico como Guardiola no Barcelona,  Brian Clough no Nottingham Forest, Bob Paisley no Liverpool ou Helenio Herrera na Internazionale, só para citar alguns dos nomes.

Volta e meia, um “estranho no ninho” apronta e ganha a Champions com trabalhos em diferentes clubes. Não menos brilhantes, Ernst Happe (Feyenoord/1970 e Hamburgo/1983), Ottmar Hitzfeld (Borussia/1997 e Bayern/2001) e José Mourinho (Porto/2004 e Internazionale/2010)  provam seu talento com bons trabalhos ao longo do continente. Se ganhar esse sábado, Josef “Jupp” Heynckes será o próximo da lista.

O alemão cinzento dos espetados fios cor de céu nublado é ídolo na cidade de Mönchengladbach, onde foi tricampeão alemão como jogador em 1975, 76 e 77. Terceiro maior artilheiro na Bundelisga, Heynckes virou  auxiliar de Udo Lattek no Gladbach e assumiu o clube por 7 anos, despertando o interesse do Bayern, que o contratou em 1987. Ficou por 4 anos, ganhando a Bundesliga em 1989 e 1990, mas com a venda de jogadores no final da temporada, Heynckes saiu em decisão de Uli Hoeness, diretor do time na época que se arrepende até hoje.

Logo após, levou os bascos do Athletic Bilbao à quinta colocação em La Liga. Passou sem sucesso pelo Eintracht Frankfurt até fazer sucesso de novo na Espanha, levando o pequeno Tenerife as semifinais da UEFA Cup em 1997. O trabalho o credenciou a treinar o Real Madrid no mesmo ano, após a recusa de Ottmar Hitzfeld, recém-campeão com o Borussia Dortmund. Nos merengues, encerrou um jejum de 32 anos e ganhou a Europa.

O Real de 1997/98 tinha a marca de Jupp: simples, coletivo e forte defensivamente. Um 4-3-1-2 que forçava na esquerda com o apoio de Roberto Carlos e Mijatovic caindo pelo lado. Na direita, Panucci ficava mais contido para liberar Seedorf e até Hierro, responsável por iniciar a saída de bola. Raul articulava mais pela esquerda, mas se juntava ao ataque no meio ou buscava o jogo. Sem a bola, Raul e Seedorf fechavam os lados e o esquema se transformava num 4-4-2 compacto que levou apenas 5 gols em 11 jogos., mas fez 21 gols, 4 de Morientes e 4 de Davor Suker, o reserva que incendiava no segundo tempo, mas que mantinha a coletividade e eficiência marcante do time.

Jupp foi estranhamente demitido por não conquistar o Espanhol e fracassou no Benfica, Bilbao, Schalke-04, Borussia Mönchengladbach e Bayer Leverkusen, até retornar ao Bayern, onde está até hoje e levou o clube a mais 2 finais de Champions League, sempre aplicando seus métodos de armar times coletivos, fortes defensivamente e letais no ataque. Hoje é o melhor e mais coletivo time do mundo.

Chamado de “Osram” por ficar muito vermelho quando está nervoso, Jupp pode encerrar uma belíssima trajetória no futebol ou assumir de novo o Real Madrid, segundo boatos da imprensa. Seja qual for o destino, seu nome já é eterno e pode ser reconhecido como um dos melhores técnicos alemães de todos os tempos.

A única vez que Dortmund e Bayern se encontraram na Champions foi em 1997/98: defendendo o título, o Borussia tinha um grande desafio frente ao Bayern, armado no 3-5-2 por Giovanni Trapattoni. E deu Borussia, de Ottmar Hitzfeld: após empate, o Borussia marcou nos acréscimos e foi para a semifinal com o Real, repetindo 2013. O técnico que levou o título aos merengues já sabemos.

O reencontro agora é pela final. O mundo assistirá dois times modernos e ao mesmo tempo simples, sem peripécias táticas ou modelos inovadores: todos defendem e quando atacam são eficientes. Esse é o Bayern Munich e o Borussia Dortmund, um duelo que promete ficar para a história.

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