Sir Alex Ferguson, a lenda do United

38 títulos, 1.498  jogos, 894 vitórias, 337 empates e 267 derrotas, aproveitamento de  65,17%,  fecham a era de ouro na parte vermelha de Manchester.

Sir Alex Ferguson deixa a casamata e fica o mito que fez do United o maior clube da Inglaterra e um dos maiores do mundo.

Mais do que isso, leva com ele o folclore do “Fergie Time”, o inseparável chiclete, as brigas com estrelas e o jeito durão e disciplinador que tirou Beckham do clube.

Foram 27 anos de um técnico símbolo do planejamento, da manutenção de filosofia e dos maiores títulos da história do clube. Mais do que isso, foram 27 anos da manutenção do jogo de passe escocês, de quem Ferguson aprendeu com Jock Stein, lendário técnico campeão europeu com o Celtic em 1966/67 e que David Moyes, o sucessor, manterá.

Dos 61 títulos do United, 54 vieram de técnicos escoceses. John Champann, Scott Duncan, Matt Busby, Tommy Docherty e Sir Alex Ferguson guardam passagens que duram décadas – Busby foi o responsável pelo primeiro título europeu em 1968, mas também por iniciar um projeto de treinamento de jogadores jovens da base e manutenção de um sistema tático vigente e de variações que encerrou um jejum de 51 anos no Campeonato Inglês, em 1951/52.

Após a saída de Busby, o United foi cruelmente rebaixado com gol do ídolo Denis Law jogando no rival, o City. Na temporada, um técnico fora da ilha dirigiu o clube, o irlandês Frank O´Farrell. Distante e frio, não controlou os excessos de George Best e ampliou a crise que o escocês Tommy Docherty não evitou.

A alegria nos anos 1980 de ver o rival Leeds se enfraquecer e o Liverpool perder para o Flamengo de Zico não durou muito, já que os ingleses Dave Sexton e Ron Atkinson venceram apenas 2 Copas da Inglaterra em 9 anos e o último deixou o clube à beira do rebaixamento em 1986.

Qual foi a solução? Recorrer ao jovem substituto de Jock Stein na seleção escocesa e campeão com o Aberdeen, que encerrou a hegemonia de Celtic e Rangers na Escócia e bateu o Real Madrid na UEFA Cup Winners’ Cup em 1983. Mais do que isso, o United queria resgatar a filosofia escocesa que se perdeu e o trabalho com jovens da base que gerou o inesquecível trio Best-Law-Charlton.

O Aberdeen de 1983 representava a volta do futebol de passes: um 4-4-2 britânico com algumas variações, como Strachan voltando mais para ajudar os volantes e liberando Weir pela esquerda, Black saindo da área para puxar a marcação adversária e um jogo baseado na transição defesa-ataque através de passes pelo chão e compactação quando perde a bola. Na prática, um 4-4-1-1 que seria a base tática da carreira de Alex Ferguson.

Do primeiro jogo, em novembro de 1986, até o primeiro título, em 1990, foram 3 anos de adaptação do United com o velho novo estilo de Ferguson. A torcida pedia a saída do técnico, mas o clube insistiu e deu carta branca para contratações – marca que permanece até hoje. A Copa da Inglaterra de 1990 começou a moldar o time no 4-4-1-1 que ficaria bem evidente na vitória sobre o Barcelona de Cruyff em 1991: McClair saía para atrair a marcação de Koeman e acionar Mark Hughes na frente. O segundo gol é emblemático: Hughes, sozinho entre os zagueiros do Barça, recebe lançamento de 10 metros e avança até cortar o goleiro e fazer o seu segundo tento na partida.

Foi o início de um time baseado na transição – um contra-ataque menos veloz e agudo do que o de Mourinho no Real Madrid, mas baseado nas linhas de passes nas laterais. Com Giggs, Kanchleskis e Schmeichel, o United ganharia a Premier League de 1992/93 após 26 anos e consolidaria o estilo do técnico: muito contra-ataque, defesa pouco vazada, compactação como forma de criar linhas de passes e uma inovação tática – o recuo de McClair ou Cantona se alinhado a Giggs e Kanchleskis: um 4-4-1-1 que tinha cara de 4-2-3-1, 20 anos antes do esquema ser considerado o mais moderno existente.

 

Ferguson mostrava estar muito a frente de seu tempo e cobrava marcação e ataque de todos os jogadores, assim como troca de posição para confundir seus oponentes, como na figura abaixo: um Manchester United atacando no 4-2-3-1 para acionar Hughes na frente. Imagem extraída de United 2 x 2 Liverpool, em 1992.

Outra característica  ficou marcante: as frequentes mexidas no time principal, mas a manutenção de uma base – geralmente a defesa titular e o goleiro. Mesmo assim, times sempre muito entrosados pelos passes que raramente saiam errados, ou pela arma principal – o contra-golpe que raramente falhava. Com Cantona, Sharpe, Hughes, McClair, Kanchelskis, Ince, Scholes e Keane como opções do meio para frente, o time criava e se juntava na defesa para roubar a bola e sair rápido. Ferguson aprendeu a importância do passe certo com Jock Stein e o Celtic que tocava muito a bola em 1967.

Depois de 1992/93, os títulos ingleses de 93/94, 95/96, 96/97 e 98/99 coroou os Red Devils e a nova supremacia no futebol inglês, agora na era de Premier League. Já sem o problemático Cantona e com o mítico Gary Neville, Ferguson conquistou finalmente a Europa em 1999, ano do “Treble” – Copa do Inglaterra e Premier League. Embora Yorke saísse menos da área do que Cantona, a dinâmica de puxar um zagueiro continuou, assim como a dupla com Cole, mais estático para aproveitar os cruzamentos de Beckham ou o rebote de Scholes e Keane. Na final do Mundial, foi assim que o United venceu o forte Palmeiras de Felipão: cruzamento de Giggs para Keane marcar e coroar a geração mais vitoriosa do United.

Apesar da conquista da Europa e do mundo, 2000 seria um ano de profunda mudança para Ferguson, principalmente por causa do nó tático que levou para Del Bosque nas quartas-de-finais contra o Real Madrid. Após empatar em 0×0 no Santiago Bernabeu, Del Bosque armou um 3-3-2-2 em Old Trafford, liberando Roberto Carlos e ganhando superioridade no meio-campo. O Real fez 3×2 e plantou a dúvida na cabeça de Fergie: como criar sendo que as linhas de passe estão todas bloqueadas com um adversário a mais no meio?

A solução foi copiar os 5 homens no meio-campo com homens criativos logo após a defesa, para melhorar a saída de bola. Fergie foi buscar Juan Sebástian Verón para armar o time, avançando Scholes. Já no 4-2-3-1 com Verón em 2001, o time passou por instabilidades e foi mal na Europa, além de ficar sem a Premier exatamente no ano em que o argentino foi efetivado – 2001. Foi o período mais turbulento do técnico no United. Verón foi considerado um fracasso, mas faltou adaptação de vários jogadores fora da posição de origem, principalmente de Scholes, que admitiu que joga melhor mais recuado.

O título da Premier veio em 2002/03 com o retorno do 4-4-1-1 com Solskjaer em compania a Nistelrooy, muito porque Verón se lesionou. Mas a temporada apontava para a aposentadoria de um jogador único no elenco – Roy Keane. Ferguson tentou substituí-lo com Fletcher e Hargreaves, sem sucesso. Com um elenco já caminhando para o declínio físico, Ferguson viu que era hora de renovar e trouxe novidades: Vidic, Cristiano Ronaldo, Carrick e Evra fizeram parte da renovação enquanto o United assistia Henry e o fantástico Arsenal de 2003/04 ganhar a Premier.

Ferguson resgatou as linhas de 4 e manteve a essência – a ocupação de espaço para criar linhas de passe e a saída rápida – mas agora sem um centroavante de referência, com Rooney e Tévez se revezando e abrindo espaços para Cristiano Ronaldo. O 4-4-2 móvel e ofensivo tinha também nos chutes de longa distância outra arma. Foi assim que Ferguson voltou a conquistar a Europa em 2007/08.

Outra característica marcante de Ferguson se mostrou naquele jogo e em muitos outros: a mexida estratégica de acordo com o jogo ou o oponente, mas sem deixar de lado a base, geralmente a defesa. Em 1992 escalava McClair no lugar de Cantona para ganhar velocidade. Em 1999, Butt e Blomqvist jogaram a dramática final contra o Bayern. Em 2005, Giggs e Rooney abriram pelos lados para os chutes de Scholes em alguns jogos. Tudo sem perder a saída rápida pelas pontas e o passe sempre correto de um time que treina muito e nunca parece estar desentrosado, além da marcação compacta em duas linhas, como na imagem da final de 2007/08 contra o Chelsea.

É o considerado “sistema para jogos decisivos”: um 4-4-2 que se modifica para 4-1-4-1 em jogos fora de casa e volta ao 4-4-1-1 para jogos dentro de casa. Na final contra o Chelsea em 2008, Heargraves foi conter Ashley Cole na direita e Ronaldo foi explorar Essien na esquerda. Mas nem sempre funciona: após 30 minutos, Essien superou Ronaldo e Lampard empatou. Em 2000, teria ganho em Madrid se não fosse a formação defensiva fora de casa. Esse ponto é um dos mais questionados do técnico.

Apesar das contratações nem sempre bem sucedidas como Berbatov, Forlán e Park, Ferguson continuou soberano no país e levou o Manchester ao título nacional em 2006/07, 07/08 e 08/09. Ficou mais defensivo desde a vitória no sufoco em 2008, variando mais os esquemas – transitou entre o 4-4-1-1, o 4-4-1-1 e o 4-2-3-1 com Rooney cada vez mais perto do gol, por vezes isolado.

Na final contra o Barcelona em 2009 e em 2011, duras derrotas com uma nova geração marcada por Rafael, Valencia e Chicharito. A aposentadoria de Scholes e o tiki-taka espanhol abriram a necessidade de novos meio-campistas para o United, de acordo com a necessidade mundial – Ferguson já tinha visto isso com Verón, mas estava mais preparado para colocar em prática. Anderson e Giggs viraram box-to-box e a maior surpresa: Rooney, anteriormente centroavante, foi usado como volante no jogo do título inglês do United em 2012/13.

O título inglês de 2012/13 é histórico por 2 razões: é o vigésimo do clube, finalmente ultrapassando o Liverpool, marca inimaginável quando Ferguson assumiu o clube. E segundo por ser o último da lenda viva que soube a hora de parar e dá lugar a David Moyes, também escocês que segue a filosofia do jogo de passes, da fidelidade ao 4-4-2 mas com mobilidade para encaixar jogadores e do trabalho de base e contratações para o futuro.

Moyes não é Ferguson e a torcida parece entender isso. Títulos e glórias podem deixar de vir ao United por alguns anos. Mas se seguir os exemplos de Busby e Fergie, com certeza virão. E a filosofia permanece.

O mundo reconhece a grandeza de Sir Alex sem deixar de esquecer seus erros em jogos importantes e os misteriosos casos envolvendo seu filho, Darren Ferguson. Assim como todo mundo, Ferguson não é perfeito. Mas continua sendo brilhante e visionário, sem nunca abandonar o que aprendeu com Jock Stein.

O legado permanece. #thankyousiralex

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