Seleção de Scolari precisa de trabalho coletivo antes de volantes goleadores.

O quinto jogo da nova Era Scolari na Seleção Brasileira serve para fechar a lista para a Copa das Confederações, onde o Brasil enfrentará seleções mais preparadas. Momento de muita pressão, dúvidas quanto a qualidade e modernidade do futebol brasileiro e um válido teste contra uma das melhores seleções sulamericanas – o Chile de Sampaoli, seguidor do futebol envolvente de Bielsa.

O primeiro tempo foi de domínio do Chile. Primeiro, porque o time de Sampaoli apresentou superioridade numérica em todos os setores do campo: se defendia com muitos jogadores e atacava com muitos jogadores. Regra básica do futebol moderno que Felipão não exatamente ignora como dizem, mas que a falta de treinamentos e entrosamento podem explicar. O gol do Chile saiu de cabeça e de falha coletiva do Brasil. Mesmo assim, premiou a organização. Faltou que o quarteto Damião, Neymar, Jadson e Ronaldinho voltasse para o meio de campo e roubassem a bola no 4-2-3-1 que ficou agudo pela esquerda, região onde Neymar atua. Outra explicação, muito mais pertinente, para a superioridade do Chile.

Os pedidos do questionado líder Ronaldinho, foram de “acalma, toca a bola”. Verdade. Faltou uma troca de passes e movimentação dos jogadores de frente. E também segurança de Dedé e Paulinho, os piores do primeiro tempo. O Brasil conseguiu quando não trocou passe: escanteio e gol do alto Réver. Mas o domínio chileno continuou, ainda que por vezes o jogo tenha ficado mascado no primeiro tempo, exatamente quando o Brasil recuou suas linhas e bloqueou a linha de passes do adversário.

Observe o frame tático com a saída de bola do time do Brasil. Em amarelo estão 6 jogadores do Brasil. E em vermelho estão 6 jogadores do chile. Demarcado em amarelo está o curto espaço de campo em que a jogada acontece. Veja como o  Brasil se posta em campo: a saída de Jean está bem marcada (número 6), Ralf também está marcado (número 5) e a opção mais técnica, Ronaldinho, está ao fundo, sendo marcado fora do campo delimitado. Diante desse cenário, a saída é a bola longa para Neymar driblar.

Saída-de-bola-do-Brasil

O mesmo frame tático serve para analisar as opções de passe do time brasileiro e do time chileno. Já sabemos que tem 6 jogadores do Brasil e 6 do Chile. Mas observe as opções de passe de Paulinho, que é o jogador com a posse de bola: apenas Dedé e Ralf podem receber a bola e ter tempo de dominá-la. Observe as opções de passe do jogador chileno mais próximo de Paulinho: são 4 jogadores em condição de recebe-la e dominá-la após o passe. É o que Parreira disse na primeira coletiva como coordenador: no futebol moderno ganha quem tiver superioridade numérica e recomposição nos setores. O Chile tem mais jogadores e mais opções de passe não por conta de volantes goleadores ou esquemas modernos, mas sim porque é mais junto em campo.

Opções-de-passe

Felipão viu que a fase técnica de Dedé não é das melhores (diga-se de passagem, não é a ideal desde 2011) e o trocou pelo palmeirense Henrique. Também percebeu a inócua participação de Damião e o trocou pela mobilidade ainda sem físico ideal de Pato. Mas mudou a dinamica de jogar do Brasil: pediu que o quarteto ofensivo voltasse sem a bola e apertasse a marcação. Deu certo na bela triangulação do gol de Neymar: quarteto ofensivo aperta, rouba a bola e aciona Pato, que apenas rola para Neymar. É o caminho para jogadores jovens e rápidos.

O frame tático mostra um pouco da mudança de atitude que foi premiada com o gol de Neymar: mais jogadores em um setor e bem próximos entre si. É um caminho, mas o comportamento de Ronaldinho sem a bola preocupa (apontado na seta): completamente passivo na ocupação de espaço e alheio ao jogo. É esse ponto que está realmente atrasado no Brasil de Scolari: todos precisam participar, retomar e sair. A velocidade na saída ou na troca de passes pode depender das características dos jogadores, mas a compactação é necessária.

ronaldinho

O Chile fez um belo gol com Vargas, jogador de qualidade do Gremio. Mas o 3-3-3-1 de Sampaoli permaneceu saindo para o jogo com passes corretos em todo o campo e travando a saída de bola no Brasil. Neymar não voltou em nenhum momento. Ronaldinho tentou fazer sombra, mas faltou preparo físico. Osvaldo no lugar de Jadson e Pato foram os que mais voltaram para o campo defensivo. E o empate com vaias justas foi consolidado.

Em alguns momentos a solução de Felipão foi liberar Henrique, volante de Scolari no Palmeiras da Copa do Brasil. Sem saída de bola, liberar zagueiros de qualidade técnica é uma alternativa. Mas com Ronaldinho e Neymar mortos no combate, fica impossível pensar em ofensividade, modernidade e cópia europeia. A questão da Seleção é a coletividade dos homens de frente e o posicionamento dos homens de trás. Sem isso fica impossível pensar em uma dupla de volantes goleadores ou em Kaká e Ronaldinho juntos. Todos precisam que participar.

E vale um adendo: trabalho coletivo não significa que Neymar terá que dar carrinho. É uma insistencia falar de “coletivo” e “voltar para marcar”, mas o conceito precisa ser entendido: é preciso marcação que comece pelos atacantes, pressionando a saída de bola. Isso pode ser feito cercando o adversário e fechando a linha de passe, o que não exige habilidades defensivas de um Pierre, por exemplo. Outra questão a ser trabalhada é a roubada de bola e a saída rápida com ela. Podemos jogar com Ramires e Paulinho? Sim. Hernanes e Arouca? Sim. Mas antes deles, o quarteto ofensivo precisa ser rápido, ter folego, saber cercar e roubar a bola. Só assim será possível os tão sonhados, criticados e polemicos volantes goleadores. E também precisa ficar claro que Fernando e Luiz Gustavo não são volantes “brucutus”, mas continuam sendo defensivos.  Como Martínez e Bender dos irresistíveis alemães que destronaram a Espanha essa semana.

Não se pode esperar de Felipão algo diferente do que fez em seus 30 vencedores anos de carreira. Para entende-lo, é preciso olhar para seus times no passado. E a constatação é de que o primeiro gol de Ronaldo na Copa do Mundo surgiu de uma bola roubada no campo de ataque, passada por Rivaldo, que chutou e Kahn largou para novamente Ronaldo estufar as redes. O futebol mudou muito de lá para cá e a fórmula de 2002 parece ser ultrapassada. Porém, lá os homens da frente participaram. Hoje eles precisam participar muito mais. É essa a questão fundamental a ser pensada e que nunca foi resolvida com Mano Menezes e agora com Luiz Felipe Scolari.

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