Reflexão: o surgimento dos “híbridos” no 4-2-3-1

O advento do 4-2-3-1  é considerado a última evolução tática que se teve notícia. De acordo com muitos técnicos, 3 meias criativos protegidos por 2 volantes e a linha da defesa é a melhor maneira de ocupar espaços e também de se defender e atacar com mais jogadores. Foi um processo de aproximadamente 10 anos desde o primeiro resquício de 4-2-3-1, no Manchester United de 1993/94, até a solidificação no Arsenal e no Valencia de 2004, o ano “oficial” do esquema. No Brasil, a caminhada foi igualmente tortuosa: Felipão já dava sinais de 4-2-3-1 no Grêmio de 1995 e no Palmeiras de 1999, Leão usou o esquema no Santos de 2002 e Mano Menezes oficializou a linha de 3 meias no Grêmio de 2007. Hoje, dos 12 grandes, apenas Grêmio, Santos e Flamengo não adotam o esquema. Também não se deve esquecer que algumas interpretações apontam que o Brasil de 1970, o Flamengo de 1979-1983 e o Brasil de 1982 usaram o esquema. Mas para fins de análise, o início oficial é aquele apontado por Jonathan Wilson, entre o Arsenal de Wenger e a  Eurocopa de 2000.

É um esquema moderno, o que não significa perfeito, que exige marcação e dinâmica ofensiva dos 3 meias, assim como participação com e sem a bola do centroavante. A figura do “banheirão”, o centroavante “grosso” e goleador, tende a desaparecer com a adoção do 4-2-3-1, assim como o armador clássico, o “10” que tem como único representante brasileiro PH Ganso. Porém, os últimos anos têm marcado o nascimento de um novo jogador, um híbrido entre meia criativo central e centroavante goleador. Esse “novo 10” tem todas as características de um centroavante e a visão de jogo típica de um armador. Ele tem mobilidade, bom passe, capacidade de organização, participação na marcação e dá ao treinador a opção de ter um sistema tático híbrido, já que pode transitar entre duas funções com facilidade: joga centralizado no trio de meias e vira segundo atacante, fazendo com que o time mude para o 4-4-2.

Exemplos não faltam. Esses híbridos estão cada vez mais valorizados e cada vez mais goleadores. Se na Liga Inglesa nomes como Rooney, Van Persie, Tévez e Aguero podem ser chamados de “híbridos” por suas características, é na Liga Espanhola que um jogador brasileiro impressiona: Jonas, ex Santos e Grêmio, é o maior exemplo de “híbrido”. Atualmente ocupando a faixa central do meio, Jonas é goleador, tem bom passe e transita o tempo todo entre meio e ataque. Em números, faz o Valencia ir de um 4-2-3-1 para um 4-4-1-1 ou até um 4-4-2 em pouco tempo. Jonas “puxa” a variação e de quebra pode ocupar qualquer outra posição do quarteto ofensivo. É o tipo de jogador moderno e dinâmico que o futebol valoriza.

Na Liga Inglesa, Robin van Persie nunca foi centroavante, mas sempre fez muitos gols. Extremamente técnico e habilidoso, cresceu com Alex Ferguson e é o destaque do time, ofuscando até Rooney. O “shrek” foi do ataque para o meio e hoje se define com um garçom, mas também faz a referência como poucos. Na mesma cidade estão Tévez e Aguero, argentinos brilhantes que podem ser centroavantes definidores, meias criativos e até ponteiros incisivos.

Em Liverpool, Fellaini começou como volante, mas sua visão de jogo é tão boa que logo foi armar o time. Como é alto, passou a jogar de centroavante e hoje é mais um na galeria de híbridos, que com simples movimentação muda o esquema do time e abre a defesa adversária, além de fazer muitos gols de cabeça com os cruzamentos de Baines. Com os híbridos, os gols vêm de muitas maneiras, como contra-ataques ou jogadas trabalhadas. Não é erro dizer que ele é um elemento surpresa para zagueiros, que ainda não aprenderam a marcar esse 10 que se aventura pela 9, ou um 9 que se faz de 10.

No Brasil um jogador moderno como esse só poderia estar num time igualmente moderno. Danilo, do Corinthians, é um perfeito exemplo de híbrido: ocupa o meio criativo com bom passe e cadência de jogo, mas pode ser usado na referência pelo bom cabeceio. Foi assim na Libertadores de 2012. E ainda pode marcar como um winger, posição que ocupou contra o Chelsea.

Talvez o primeiro híbrido da história seja o polêmico e rebelde Eric Cantona, o brilhante francês ídolo do Manchester United. Inicialmente um centroavante, Sir Alex Ferguson percebeu que se Eric saísse da área e desse bons passes para um outro atacante, seu time iria ganhar um jogador no meio e levaria um zagueiro para marcar Cantona, abrindo espaços. O nascimento do 4-2-3-1 se deu exatamente nessa “saída de área”, e o “híbrido” Cantona entrou para a história.

O futebol evoluiu e os “híbridos” podem ser apenas uma coincidência ou uma tendência tática e técnica nos próximos anos. A era de armadores brilhantes como Gérson, Zico, Sócrates e Ademir da Guia pode ter acabado, mas uma outra parece estar nascendo: a de meias e atacantes “híbridos”. Se o passado deixa saudade, o futuro reserva jogos eletrizantes, passes geniais e golaços. Basta sentar e apreciar o espetáculo.

*Raul Chiliani, o texto nasceu de nossas conversas! E créditos para ti dos campinhos.

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5 thoughts on “Reflexão: o surgimento dos “híbridos” no 4-2-3-1

  1. Excelente texto, mas discordo que Robin Van Persie tenha melhorado no Manchester United. No Arsenal, ele já mostrava todas essas qualidades, fazendo um sem-fim de gols sempre que não estava machucado e, especialmente, na última temporada, onde foi o artilheiro da Premier League.

    Um abraço e parabéns!

    • Felipe, Van Persie é um daqueles craques que joga bem em qualquer time, com qualquer elenco. No Arsenal ele já era impressionante.Para mim é genial. E começou como meia-atacante, e com Fergie já jogou na meia direita, especificamente contra o Cluj na Champions. E jogou bem!

  2. O problema é termos esses jogadores modernos.

    Alguns são mais meias do que atacantes… e outros são mais atacantes que meias.

    Não vejo quase nenhum que tenha capacidade de meia e finalize tão bem quanto os atacantes.
    O que mais aparece são jogadores de ponta, rápidos… que tem folego para ajudar na marcação.

    Exemplo osvaldo e lucas no são paulo de 2012.
    Ambos são mais atacantes e voltam marcar.
    Eles sozinhos não criam nada sem ser jogada individual.

    • São poucos os híbridos ainda, Adriano. Jonas, Rooney e Fellaini são os melhores exemplos, junto com Tévez, Aguero, Van Persie. Até Benzema pode jogar aí. Mas tanto o Jonas como o Rooney finalizam muito bem e são ótimos passadores e armadores. A dificuldade nesse jogador é isso que você apontou: ele é mais meia ou mais atacante? O Rooney, atualmente, é mais meia, e o Van Persie é mais atacante.

  3. Pingback: Alan Kardec já é realidade como “camisa 9 moderno” | Painel Tático

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