Cronologia tática do Fluminense, campeão brasileiro de 2012

O ano do Fluminense em 2012 foi quase perfeito – a eliminação na Libertadores para o Boca Juniors foi menos sentida em razão dos desfalques de Deco e Fred na partida decisiva – e culminou com o justo título brasileiro, coroando o Flu como o mais organizado time do Rio de Janeiro, dentro e fora de campo. Méritos de seu treinador, que apostou em uma base sólida e manteve um esquema padrão, embora com variações importantes para ser cada vez mais letal e vencedor, e também da direção, que reforçou o elenco com Anderson, Bruno, Wagner, Nem e Thiago Neves – podem não ser craques, mas desequilibram partidas, mérito essencial para conquistar um título tão longo.

Na Taça Guanabara e na estréia da Libertadores, o Fluminense apresentou defeitos típicos de uma equipe nova e em início de temporada: muitos espaços entre os setores, falta de identidade e assimetria nos setores, mesmo que o esquema base fosse o 4-2-3-1. Mesmo assim, conseguiu superar seus adversários e se impôs como a melhor campanha da primeira fase no torneio continental, além de conquistar a Taça Guanabara vencendo nos pênaltis o Botafogo e aplicando 3X1 no Vasco na decisão. No 4-2-3-1, o Fluminense ganhou com Wellington Nem pela esquerda, uma referência de velocidade que desafogava o time nos contra-ataques e ajudava na marcação, Thiago Neves pela direita, cada vez mais tático, e Deco centralizado, recuando para dar a saída de bola.

Na decisão do Estadual, mais uma grande atuação de um time paciente, que jogava a bola em Deco para sua melhor jogada. Ainda sem Nem como titular absoluto, mas já com a dupla de volantes Jean e Edinho, o Flu fez 4 gols no Botafogo de Oswaldo de Oliveira, ganhou do Boca na Bombonera e eliminou a decepção Internacional da Libertadores. Na época, era apontado como um dos grandes favoritos para o título da competição, que ficou mais uma vez no sonho com a grande atuação de Riquelme, em apenas uma bola, e os desfalques cruciais de Fred e Deco, os melhores do time.  Na parte tática, Abel já tinha visto que o Flu ganhava mais com Deco recuado entre os volantes, com o suporte de Jean, que crescia de produção. Na partida contra o Boca, armou o 4-3-2-1 que muitas vezes foi usado no Brasileirão, com Wagner no lugar de Deco. Na partida, o Flu dominou, ganhou o meio de campo, mas criou pouco pela falta do camisa 20. O gol de empate sofrido no fim foi uma lição para Abel Braga saber o usar o elenco e depender menos do luso-brasileiro na criação.

Em nenhuma vez ameaçado de demissão, Abel Braga teve tranquilidade para trabalhar e melhorar o time na parte tática e técnica para o Brasileirão. Sabendo que a competição nacional exige regularidade e eficiência defensiva, o ponto chave para qualquer equipe em torneios de pontos corridos, Abel montou um time mais comedido, que sabia se fechar. Ele também sabia que Deco poderia ficar mais ausente, e por isso, a criação não poderia se focar apenas no camisa 20. Assim, armou o 4-2-3-1 com 2 variações: na fase defensiva, um 4-1-4-1 como recuo dos ponteiros e alinhamento com Jean e Deco, e na transição, quase um 4-3-3 com Nem e Thiago Neves, ou Rafael Sóbis e Wagner entrando na diagonal. O time que perseguiu o poderoso Atlético-MG virou líder, e passou a imprimir sua marca: paciência, regularidade, calma, recuo após os gols, por muitas vezes excessivo, e vitórias suadas.

Crescendo na competição, o Flu ganhava, mesmo jogando mal, e tinha em Cavallieri seu ponto forte, com defesas milagrosas. No FlaXFlu centenário, brilhou a estrela do ex-palmeirense para garantir mais uma vitória suada do Flu. Pragmático, recuado, buscando o momento certo do gol, o Fluminense foi construindo sua caminhada ao título de forma paciente, pensando no próximo adversário. Poucas vezes foi visto nervosismo ou expulsões dos jogadores tricolores. Com Deco cada vez mais volante e os laterais aproveitando bem as subidas, Abel teve visão quando mudou o time para o 4-3-1-2 com o losango no meio, marcando mais equipes no 4-2-3-1, o esquema mais usado do campeonato, e no 4-3-1-2, resgatado por Flamengo, Palmeiras, Bahia, Cruzeiro e em certas vezes Internacional e Vasco. Com Nem cada vez mais agudo e Thiago Neves mais tático, Abel ganhava o meio com três volantes e sempre procurava a velocidade de Nem pelos lados.

Nesse esquema, a falta de Deco só foi sentida no melhor jogo do campeonato – a vitória do Galo sobre o Flu por 3X2, quando muito se questionou a opção por Diguinho no lugar de Deco. A diferença de 4 pontos na época voltou a colocar em cheque o título tricolor, mas novos tropeços do Galo e a regularidade do Flu confirmaram o título, que veio de forma oficial sobre o Palmeiras, por 3X2. Nos últimos jogos, a volta do 4-2-3-1 que vira 4-1-4-1 ou 4-3-3 nas transições.

Os méritos de Abel são muitos: manteve a base no ano todo, apostou no entrosamento da dupla de zaga, soube explorar os pontos fortes de cada jogador e ainda usou a base das Laranjeiras – Samuel, Marcos Rocha, Higor e até seu filho, Fábio Braga, entraram e não fizeram feio. Abel montou um time extremamente disciplinado em campo, mas soube mexer as peças de acordo com o que cada jogo pedia, sempre com os mesmos jogadores. Mesmo que tenha recuado muito quando não foi preciso, o Fluminense tem, a 3 jogos do fim, a melhor defesa, o melhor ataque e impressionantes 22 vitórias, com apenas 3 derrotas. Campanha inquestionável, que não tem nada a ver com erros de arbitragem que fizeram o Atlético-MG protestar tanto.

No fim do jogo, já campeão, Abel Braga titubeou em frente às câmeras e preferiu se dirigir à torcida e gritar: “eu fico”, encerrando os rumores sobre uma possível ida ao Internacional. O gesto é o primeiro passo para o Flu conquistar a tão sonhada Libertadores no ano que vem, e também um ato de agradecimento de Abel, primeira vez campeão brasileiro. Não faltou emoção!

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