O “efeito Cuca”

Cuca apareceu no cenário nacional em 2003, quando comandou um Goiás abusado, ofensivo, com tática interessante e revelações como Danilo, Josué, Grafite e Araújo. Meio de campo forte, com várias compensações táticas e muito toque de bola, o 3-4-3 de Cuca foi responsável pelo nono lugar no Brasileirão-03 e a segunda melhor campanha do returno, atrás apenas do campeão Cruzeiro. O primeiro trabalho de recuperação que seria a marca do treinador.

No São Paulo, trouxe Danilo, Fabão, Grafite e Josué e montou o mesmo 3-4-3 que foi a base do time campeão de 2005, mas sucumbiu ao Once Caldas em 2004. Abalado emocionalmente, Cuca pediu para sair e passou 46 dias no desastroso Grêmio rebaixado a segunda divisão. Fracas passagens por Flamengo, Coritiba e São Caetano se sucederam até que o Botafogo apostou no treinador. Novamente, Cuca montou um time insinuante, ofensivo, no 3-4-3 predileto do treinador. Ficou 2 anos na Estrela Solitária, e apesar de ser o melhor time durante o período, faltou controle emocional para decidir partidas: sucessivos vices cariocas frente ao Flamengo, eliminação da Copa do Brasil de 2007 e vexame frente ao River Plate, que marcou 3 gols no fim com um a menos e decretou a fama de “chorão” de Cuca. A derrota por 2X0 para o São Paulo no Engenhão lotado foi o início do fim e a marca do descontrole emocional do grupo. O “chororô” voltou a se repetir no vestiário do Maracanã em 2008, quando Cuca chorou frente a jogadores depois de perder mais um título carioca.

O Carioca de 2009 e o milagre no inacreditável Fluminense de 2009 pareciam ter dado ao treinador a experiência e calma necessárias. No Cruzeiro, fez grande trabalho, até perder para o Corinthians com pênalti duvidoso e bater na mesa durante a coletiva. O título mineiro de 2011 e a sensação na Libertadores veio por água abaixo com a traumática eliminação para o mesmo Once Caldas, com direito a Cuca agredindo o atacante do time colombiano.

No Galo, Cuca resgatou a confiança e salvou o time contra o rebaixamento. No primeiro turno do Brasileirão, fez campanha invejável e encantou novamente. Disposto, comprometido e intenso, o Galo atuou no 4-2-3-1 com Ronaldinho de meia central, quase como um atacante. Sem a bola, a equipe se posiciona num 4-4-2 em duas linhas, muito pelo incansável trabalho de Bernard e Danilinho. Ataque pelos flancos, lançamentos procurando o pivô de Jô e o avanço de Marcos Rocha, devidamente coberto por Pierre completaram a dinâmica ofensiva do Galo que parecia superar o Cruzeiro de 2003.

A história não se repete no segundo turno, o que custou a liderança para o Fluminense. 15ª campanha no segundo turno, o Galo perdeu folego, cria pouco, não retém mais a bola no ataque e dá espaços na defesa. Com 9 pontos conquistados dos últimos 24 disputados, o Galo parece ter deixado a disputa pelo título por uma série de razões: Jô ficou fora do time e não voltou bem. Quando joga sem uma referência, o time não consegue manter a bola na frente para a chegada dos meias. A lesão de Pierre deve abrir um corredor na direita, já que o ex-Palmeiras era o responsável pela cobertura de Marcos Rocha nas constantes subidas ao ataque. Bernard, o grande destaque do time no primeiro turno, ganhou marcação individual e não consegue mais impor velocidade e fazer gols. Além disso, Danilinho vive fase terrível e seu substituto, Guilherme, não convence.

O longo jejum desde 1971, a frustrante temporada de 2009 e os recorrentes fracassos afetam o emocional de dirigentes e jogadores e o título que parecia tão perto hoje já está mais distante. Humilde, simples e sincero, Cuca não consegue se impor quando precisa e o time acaba relaxando. Reclamar da arbitragem e mostrar fraqueza – como fez no São Paulo, no Botafogo e no Cruzeiro – não é o melhor caminho para acabar com o jejum do time mineiro. Se quiser provar que é um líder tão bom quanto é na parte tática, Cuca precisa ter controle, imposição e saber dosar ordens, broncas e puxões de orelha a seus comandados. Só assim conseguirá mandar para o espaço a fama de “chorão” que o acompanha e o “efeito Cuca” em seus times: brilham, mas não ganham.

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